Publicado em Diário, Pensando e Escrevendo, Sentindo e Escrevendo

Devaneios – parte 1

Se eu fosse descrever o que se passa em minha mente, eu não teria tempo para mais nada além de escrever. Mas como estou começando a sentir necessidade de tirar isso de mim, então escrevo. Na verdade minha vontade já é antiga, minha angustia já é antiga, minhas dores já são antigas, minha ânsia já é antiga… Eu já sou antiga.

Velha. Mas para quem? Eu me sinto velha nas minhas comparações. Me sinto velha nas minhas tentações. Tentações antigas e perigosas. Me jogar é uma das minhas tentações mais antigas. E seja lá o que isso for. Me jogar está mais para um salto ao infinito. Mas o infinito é muito grande, e eu não sei o que tem do outro lado. Você sabe o que tem do outro lado? Por favor me diga. Não. Na verdade eu não quero saber. O que você viu com certeza será diferente do que eu verei. Prefiro eu tirar minhas conclusões.
Tem alguém ai?! Está me ouvindo? Ei, ei! Não quer me ouvir? É, eu sei… É chato. Meus pensamentos são chatos para você. Nada muito além do que um ser humano em sofrimento. E quem não sofre, não é? Todo mundo sofre. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já dizia Caetano.
É bom ser o que é? Me desculpe mas não estou satisfeita não. Que ser muito além do que sou. Quero voar alto para ninguém me alcançar. Não me toque! Seus toques me prendem nesse mundo, e eu quero voar. Eu sei, é mais fácil ficar aqui. Mas eu já disse! Pare! Não me toque! Ta bom então. Eu fico mais um pouco.
Deitei na cama um dia desses e parecia como se eu fizesse parte dela. A cama parecia que me engolia. Meu corpo pesava, minha cabeça doía. Acho que eu estava tão triste naquele dia, que queria virar uma cama. Porque a cama é um objeto, e objetos não sentem dor, não ficam tristes e nem choram. De fato que naquele momento senti inveja da minha cama. Sortuda!
Outro dia em compensação eu queria distância dela. Ser cama para mim já não fazia mais sentido. Mas eu estava feliz. Tinha acabado de encontrar o amada. Eu mal conseguia sentar na cadeira. Ela também não fazia ideia de como era bom amar. Naqueles momentos eu pensava no sentido da vida. Que era por conta daquilo que sentia que estávamos aqui no mundo.
Será?! Não sei se é muito lógico. Eu penso em Deus. Se ele existe ou é invenção do homem para satisfazer suas perguntas filosóficas que não tem resposta. E Jesus é outro que tenho lá minhas dúvidas se realmente existiu. Mas eu não espalho muito essas minhas ideias. Vão dizer que sou louca e me darem passe livre para o Pinel.
E se eu for louca fantasiada de normal? O louco não sabe que é louco.
Estou confusa. Com medo de passar a minha vida acreditando que tenho umsonho, e depois que morrer descobrir que o sonho não era meu, e sim da sociedade manipuladora de pensamentos alheios. Tenho medo de não conseguir ser nem metade do que eu gostaria de ser.
Minha borboleta não tem cor e eu quero colori-la. Eu sou a borboleta sem cor. O que não tem cor passa despercebido. Mas na verdade eu não quero chamar a atenção. Ou quero? Talvez eu queira que alguem olhe para esse borboleta e veja o quanto ela é bonita mesmo preta e branca.
Pensando bem, preto e branco não é tão ruim. O branco é a união de todas as cores, e o preto é a ausência de luz. Talvez eu consiga fazer cores com preto e branco. Talvez seja isso. Minha borboleta esta preta e branca porque ainda não aprendeu a fazer cores. Será? Eu não sei. Devaneios!
Richard Bach disse em Ilusões: ‘Muitos escolhem determinadas vidas porque gostam de fazer coisas juntos.’ Deixarei meu sonho (ou que a credito ser meu sonho) porque teria que faze-lo sozinha? Qual a vantagem de seguir a vida sozinho, sem que ninguém te perceba? Acredito que as pessoas não queiram ficar sozinhas por costume de estar sempre acompanhadas. Outra rase de Richard Bach em lusões: ‘A gente se habitua a ficar sozinho, mas se interromper o hábito nem que seja por um dia, tem que se acostumar de novo.’ É habito. Resta saber se você quer ou não viver desse habito. A maioria prefere viver junto. Talvez eu também prefira. Eu acho que prefiro. No atual momento, não tenho certeza de nada. Nem que a colher existe.
Sinto um pouco de Clarice no que estou escrevendo. Quem leu Clarice Lispector deve ter percebido também. Nada de plágio, apenas uma sensação de ousar um pouco do que o outro ousou e se aliviar das tensões.
Clarice era intensa como ninguém, e era visível isso na sua escrita. Clarice me entenderia. Sinto fogo no que ela escreve, sinto angustias, medo, tristezas, ódios. Como se ela sentisse o que sinto. Ler Clarice é como um alívio do mundo e da solidão. Mas a solidão do silencio. Não o silencio intencional, mas o silencio da indiferença. Esse me perturba de tal forma que as vezes enlouqueço.
Estou triste. Mas triste pela confusão que estou. Me meti nesse mar de incertezas, quase me afogando. O problema é que quando entro em contato com o silencio da indiferença, eu enlouqueço e começo a me debater. Quanto mais eu me debato, mais eu afundo e fico sem ar.
Tenho que parar de me debater antes que seja tarde.
Eu já falei, não me toque! Mas que coisa! Deixa eu falar!