Publicado em Diário, Sentindo e Escrevendo

Devaneios – parte 3

– Respira fundo cinco vezes vai… Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… Escutou?
– O que?
– Seu coração.
– É, ainda bate forte.
– Mas agora você escuta ele.

As vezes ele grita. Quase fico surda. As vezes fala baixo e suave. Hoje a noite ele gritava. Ontem também gritou. Acordei com ele disparado as duas horas da manha. Foram duas madrugadas inquietas. Sofridas. Tentava ignorar os gritos, tentava fingir que não os ouvia. Na primeira noite com gritos eu fui forte, e consegui não me apavorar tanto. Mas no decorrer do dia, os gritos eram mais fortes. Davam pequenas pausas e voltavam. No final do dia já me doía a cabeça e não conseguia sair da cama. Consegui dormir com muito esforço, mas acordei com os berros do coração novamente. Olhei para o relógio e eram duas e treze da manha. Quase a mesma hora dos berros da madrugada anterior. Mas dessa vez eu já estava fraca com os berros do decorrer do dia. E novamente senti inveja da minha cama.
Chorei. Quarenta minutos de choro incensante. Quando consegui parar de chorar e fui me olhar no espelho, vi a mulher mais feia do mundo. Meus Deus! Salve essa mulher! Imagine você, uma mulher triste, porque você sabe que tristeza não deixa ninguém bonito. Olhos inchados e vermelhos, cabelos em pé e um ar de fundo do poço. Desejei que ele nunca me visse assim. Deveria ter desejado não estar assim. Mas desejei que ELE nunca me visse assim.
Ainda escuto os berros, ainda me dói a cabeça, ainda quero voltar para cama e me afundar nela. Mas se eu fizer isso hoje, talvez eu não levante tao cedo. E não quero. Quero poder ficar triste, escutar berros e sentir dores de cabeça, e mesmo assim não precisar parar a vida por causa disso. Mas sinto que estou parada numa estação de trem. Além da próxima estação ser muito longe, o trem esta quebrado e terei que esperar o conserto. E nem sei quanto tempo vai levar. Por isso respiro fundo, volto para casa, e respiro mais fundo ainda, até chegar a hora de pegar o trem e ir para a próxima estação. Qual é a próxima estação? Não sei. Descobrirei quando chegar lá.

A dois dias comprei uma flor para mim. Do nada. Estava na rua e fui paquerada por ela. Ela me olhava incessantemente. Linda! Uma rosa vermelha, aveludada, semi aberta e com um brilho visto apenas por mim. Eu não conseguia parar de olhar para ela. Não tive duvida, ela era minha. Comprei e coloquei ela no meu quarto, mesmo sabendo que flores não duram nada comigo. Nunca soube explicar o porque. Parece que comigo elas duram menos. E pasme, mas essa flor linda, continua exalando beleza e perfume. Mesmo no meu mar de tristeza, essa flor veio com ar de esperança. Esperança essa, que quase se afoga na fúria desse meu mar. E essa flor me faz lembrar que a esperança ainda esta la.


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