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Uma Versão Romântica De Um Autista

No último domingo, Fabrício Carpinejar  postou em seu facebook sua versão romântica de um autista. De nada é mentirosa. Até porque, o romantismo nunca mente!

64254_527813327238984_1958273044_nMeu amigo Renato Godá tem um filho autista.

É o Tom, 2 anos. Ele não é diferente de niguém. É como deveríamos ser: vulneráveis.

Tom não mente, não engana, não se protege como a gente.

Um menino inteligente ao extremo.

Sua inteligência é sensibilidade. Não descansa um minuto de sentir. De piscar comparações. De fazer operações matemáticas e musicais.

Uma pomba na janela é um terremoto. Um tombo na bicicleta é um colisão de estrelas. Mexer os cabelos é um aplauso.

Não há suavidade disponível para sua absorção. O conhecimento é feito por descobertas chocantes que exigem a mobilização do corpo inteiro.

É como se toda a lembrança fosse sublinhada. É como se toda a observação fosse inesquecível.

Tom me encara de lado, seu ouvido é que me olha.

Ele busca não interromper o ritmo das coisas. Os objetos têm sangue. Os objetos têm porta-retratos. Os objetos têm rosto.

Imagine se você realizasse tarefas escutando seu batimento cardíaco? Este é o autista. om o ouvido de dentro e o ouvido de fora, simultâneos. A porta da sala bate na sala e no coração. O vento assobia na janela e no coração.

Eu amo muito o Tom porque nunca vi um pai como Godá.

Godá é aparentemente desajeitado, boêmio, bagunçado.

Mas se dedica ao filho com uma delicadeza disciplinada que somente existe no interior dos animais selvagens.

Sua paciência é um presépio inesperado no deserto.

Ele explica três, quatro vezes, sem nunca alterar a doçura do timbre.

Sem jamais apresentar irritação pela repetição.

Ainda que esteja compondo ou ocupado com a vida adulta, para a respiração e se põe a conversar. Usa as mãos com gestos lentos de giz.

Toda resposta é nova mesmo que seja antiga.

A atenção pede a mirada firme e cúmplice, com duas colheres de açúcar.

Tom pega o arroz com os dedos. Godá se aproxima e mostra que o garfo é mais divertido do que a mão.

Tom volta a comer com a mão. Godá insiste que o garfo é uma extensão de boneco. Uma luva de robô.

Tom entende por cinco minutos, e Godá rearticula a fábula acrescentando um detalhe a mais de ternura.

Naquela casa, a noite é tarde demais, a biblioteca é longe demais. As histórias estão pousando a qualquer instante.

Tom beija a televisão. Godá diz que a televisão muito perto machuca os olhos. Tom beija de novo a televisão. Godá pede beijo no lugar da televisão.

O pai é um televisor que não prejudica a boca.

Tom ri alto. E beija o pai. Para depois voltar a beijar a televisão.

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Aquela Música

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Fica com essa música para você, ele falou.
Mas ela não queria. Nada que era dele ela queria perto, mesmo que fosse a sua melhor obra até aquele momento. Talvez esse seja um dos motivos dela não querer. Achar que não merece o que ele já fez de melhor.

Mas ele insistiu. Pediu que ficasse com aquela música, mesmo que nunca a escutasse, era dela e de mais ninguém.

Ela diz não com a cabeça.
Ele coloca a música na mesa e diz que essa escolha não é dela, e vai embora.

Ela não o impede. O desejo de se livrar daquela angustia de estar perto era maior do que o desejo de não ter nada dele.

Durante alguns minutos ela ficou ali parada, olhando para a música e pensando o que faria. Chegando em casa, sem saber ainda o que faria, colocou a música na estante da sala, deitou no sofá e adormeceu.

Na manhã seguinte ela acorda atrasada e faz tudo correndo. Antes de sair pega a bolsa mas sem querer esbarra na música. Em câmera lenta a música vai se espatifando no chão e o ar não consegue mais entrar em seus pulmões. Segundos infinitos.

Depois do susto, ainda com uma pequena dificuldade de respirar, ela junta todos os pedaços e coloca em uma caixa. Seu atraso não é mais importante do que deixar aquilo na portaria dele.

Ele a abre; e além da música espatifada tem um bilhete:

“Não estou pronta.”

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Voe Borboleta

147735_papel-de-parede-voando-com-borboletas_1280x8001Sou uma borboleta. Mas me sinto lagarta ainda.
Talvez porque vivo rodeada de delas e me contamino.
Elas vivem o que para mim é pretérito perfeito. Mas às vezes me pego conjugando verbos no imperfeito. E é nesse momento que entro em crise existencial. Transformei o pretérito perfeito em imperfeito.
Insistir em um tempo verbal que não mais faz parte de você, acaba confundindo, e ele volta ao infinitivo. Nem pretérito, nem presente e muito menos futuro.
Mas talvez o problema não esteja no verbo, e sim no substantivo. Deixar de acreditar no substantivo deixa o verbo sem seu real significado.

Sou uma borboleta. Mas eu não uso minhas asas.
Não é medo de voar. É não acreditar no poder das minhas asas.
Eu fui criada por lagartas que nunca virariam borboletas. Mas quando minhas asas nasceram, eu não conseguia esconde-las.
Eu tentava alçar vôo, mas fui chamada de estranha e de não pertencer naquele mundo que eles viviam. Diziam que eu estava fazendo tudo errado.
E eu descia.
E por muito tempo escolhi acreditar nas lagartas que jamais seriam borboletas.

Sou uma borboleta. E estou tentando pegar impulso para voar.