Publicado em Feminismo, Lendo e Compartilhando, Machismo, Poliamor

POLIAMOR E FEMINISMO Por Sharlenn Carvalho

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O Poliamor deve ser entendido como um modelo de relacionamento que viabiliza a libertação sexual e afetiva da mulher, uma vez que abre espaço para que esta alcance as mesmas possibilidades que os homens usufruem – em privilégio – há milênios. Nesse sentido, é importante destacar que mesmo que o Poliamor afirme a não exclusividade afetiva e sexual a partir da igualdade e da consensualidade entre as partes, muitos homens ainda insistem em consolidar a exploração e a submissão das mulheres nesse modelo de relacionamento não monogâmico que historicamente autointitula-se responsável.

Assim, na prática, o que muito se vê são homens que procuram legitimar socialmente a “traição”, a falta de compromisso e de cuidado com suas parceiras subvertendo o poliamor em “liberdade para ELE fazer o que quiser, com quem quiser e da forma que desejar.” As mulheres, por sua vez, devido à cultura patriarcal e machista em que foram educadas e nas quais suas subjetividades foram moldadas, ainda encontram dificuldade em construir uma autonomia individual que lhes permita a necessária independência psicológica e afetiva da figura masculina. Portanto, elas continuam reprimidas em seus desejos e afetos, porém agora também se sentem coagidas a aceitar (sob pena de serem julgadas imaturas, “loucas ciumentas”, caretas) que seu parceiro saia e se relacione com quantas pessoas quiser, na hora e da forma que lhe for conveniente.

O diagnóstico dessas realidades torna ainda mais imprescindível a consolidação da luta pelo feminismo vinculada à vivência do Poliamor. Não é imaginável uma relação poliamorosa não opressiva sem que os homens reconheçam seu privilégio histórico, seu machismo cotidiano e se proponham à desconstrução de tais heranças de gênero. No ponto em que estamos, talvez a melhor proposta nem deva ser a de igualdade entre homens e mulheres, mas da ascensão da mulher, da edificação de sua autonomia, pois para uma igualdade de fato, o processo de construção das subjetividades e de alcance material também deve coincidir. Desse modo, enquanto não avançarmos socialmente para uma equidade de gêneros desde a infância, não faz sentido esperar que homens e mulheres sejam afetados da mesma forma pelas questões da não exclusividade, nem que reajam do mesmo modo a estas. É visível que, em sua grande maioria, o ciúmes do homem é vinculado ao sentimento de posse que este tem sobre a mulher, enquanto o ciúmes feminino é identificado como o medo de não ser boa o suficiente, ser comparada e assim perder lugar na vida do parceiro amoroso. Tal fato é demonstrado em estatísticas que afirmam que o ciúmes do homem é, sobretudo, sexual e o da mulher, afetivo. O homem se vê ofendido em seu orgulho quando outro homem toca o corpo de “SUA” mulher (nota-se que raramente isso acontece quando se trata de outra mulher), a mulher sente angústia, medo de ser trocada por outra e se ver novamente sozinha.

A questão da insegurança também segue por caminhos diferentes quando comparamos gêneros. A insegurança masculina por vezes representa o receio de se sentir humilhado por não ser “homem suficiente” , de perder a posse que conquistou. O homem precisa provar o tempo todo para si mesmo e para a sociedade que é dominador, conquistador, viril, por isso ser trocado por outro homem – e, agora sim, também por uma mulher – é um soco no ego, é humilhante. De forma inversa, a mulher aprende desde a tenra infância, influenciada pela idealização do amor romântico presente na sociedade e pelos interesses capitalistas que sua vida só será feliz e completa ao lado de um homem, de preferência, constituindo uma família. Nesse sentido, são inúmeras as mulheres que se sentem “vazias” e sozinhas quando não estão em um relacionamento sexual/afetivo estável, mesmo com uma carreira próspera, independência financeira, amigos, hobbies, etc. Assim, a insegurança feminina advém do receio de desamparo emocional.

Obviamente existem exceções, homens que se formaram mais sensíveis e “femininos” e compartilham dos mesmos temores que as mulheres e mulheres que internalizaram no decorrer da vida mais valores tidos como “masculinos”. Contudo, estamos tratando aqui da regra, da forma geral em que os gêneros se apresentam na nossa sociedade e, portanto, cabe a defesa de que devemos buscar ações práticas distintas quando estamos falando de relacionamentos héteros. Portanto ciúmes e insegurança precisam ser encarados de formas diferentes entre homens e mulheres.

Esse é um ponto polêmico, pois conceituamos o Poliamor como um modelo de relacionamento de não exclusividade afetiva/sexual que se fundamenta na consensualidade e na IGUALDADE. Mas será que podemos mesmo falar de igualdade em relacionamentos que se dão entre oprimidos e opressores? Se toda a construção de homens e mulheres se deu por caminhos distintos, é plausível simplesmente igualarmos as ações sem levar em conta as diferenças nas subjetividades? Negros e brancos, heteros e GLBTs, pessoas de classes econômicas diferentes, homens e mulheres possuem as mesmas possibilidades econômicas, sociais, relacionais? Tiveram a mesma base, as mesmas vivências, as mesmas possibilidades? Se a resposta for não, será que não hipócrita que os grupos que sempre detiveram os privilégios possam falar, quando lhes convém, de igualdade?

Voltando ao âmbito dos relacionamentos amorosos/sexuais, será benéfico que os acordos nos relacionamentos héteros valham de forma “igualitária” para todas as partes? Se um homem possessivo impõe uma regra restritiva à sua parceira, como por exemplo só se relacionar com outras meninas ou com quem ele escolher ou na presença dele, etc., ele está usando o acordo para a busca de autonomia de ambos ou apenas se valendo do seus privilégios de sempre? Por outro lado, se o homem é quem exige não ter acordo restritivo algum, pois não quer ter limitações em seus desejos, mas a parceira ainda sofre com os valores mononormativos de ciúmes e insegurança (leia-se aqui, medo da rejeição e abandono), é razoável exigir que essa mulher se vire sozinha para dar conta de sentimentos e valores que a sociedade levou uma vida inteira lhe incutindo? Não parece que de uma forma ou de outra, é sempre a vontade dos homens que prevalece?

Como já exposto em texto anterior (https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1349330785102142&id=1021219041246653), os acordos tomados no seio das relações poliamorosas deveriam contribuir para a mútua autonomia individual, ou seja, o ideal seria a construção conjunta da autonomia de cada um, mas como será possível que a mulher conquiste sua autonomia se tais acordos não levarem em conta os privilégios dos homens (e também dos brancos, dos héteros, dos cis, dos economicamente favorecidos)?

E é através dessa problematização que percebe-se a importância da defesa de que os acordos busquem dar conta das necessidades e limites prioritariamente das MULHERES com vistas a alcançar a autonomia feminina (ser capaz de gerir ao máximo todos os aspectos de sua vida) para que, POSTERIORMENTE, se possa falar efetivamente em igualdade. Nesse sentido, é pedido aos homens, a partir do reconhecimento de seus privilégios (inclusive o privilégio de ter sido criado para ser autônomo), a desconstrução contínua do machismo e o apoio para a consolidação da autonomia feminina.

Por fim, é imprescindível afirmar novamente que, se o Poliamor não estiver a serviço da libertação sexual e afetiva da mulher, ele perde todo o sentido de ser entendido como não monogamia responsável e talvez não se diferencie muito da monogamia que historicamente sempre serviu aos interesses do patriarcado e onde a não-exclusividade afetiva e sexual masculina é aceita e a da mulher, punida (não raro com morte).

Autor:

Me transformando no que eu sempre quis ser.

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